Entrevista

07/03/2012 12:19

Especialista discute os papéis sociais da mulher na contemporaneidade

Acesso ao mercado de trabalho, violência contra a mulher e legalização do aborto são alguns dos temas ainda relevantes para a questão das mulheres

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Miriam Grossi, coordenadora do Instituto de Estudos de Gênero da UFSC

O Globo Ciência apresenta a vida e o pensamento de dois dos mais importantes intelectuais do século 20, o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. As ideias de Beauvoir serviram de combustível para o movimento feminista. De lá para cá, as mulheres vêm conquistando cada vez mais espaço na sociedade, desempenhando papeis que há alguns anos eram impensáveis. Mas, de acordo com a professora do Departamento de Antropologia e coordenadora do Instituto de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Miriam Grossi, ainda há mais o que se conquistar: “No Brasil, temos uma contradição, que mostra justamente como as questões do feminismo não são iguais no mundo inteiro: aqui, o aborto é criminalizado.A criminalização do aborto é uma situação que coloca o Brasil, no que diz respeito às conquistas feministas, muito atrás de outros países com o mesmo índice de desenvolvimento.”

Como podemos relacionar a obra de Simone Beauvoir com a questão do papel social da mulher no mundo contemporâneo?
Os romances dela colocam em cena essas transformações dos lugares de homens e mulheres na contemporaneidade. “Memórias de uma Jovem Bem Comportada” é a história dela desde criança até virar professora. O livro mostra a geração da Simone de Beauvoir, que nasceu no início do século 20 e que depois passou pela Primeira Guerra Mundial, o que tem um impacto muito grande na vida das mulheres das elites, classe social da qual ela fazia parte. As elites na época viviam de renda. O vínculo do projeto de vida com o trabalho e com a educação vai ser algo importante para as mulheres que nascem no início do século 20. Até então, o acesso à educação formal era, em muitos países do mundo, proibido às mulheres.

A mulher não ter um trabalho remunerado era uma prova da riqueza masculina. Mulher trabalhar era algo para as camadas populares. Isso é uma transformação. No Brasil, a autonomia econômica é um dos principais eixos do Plano Nacional de Políticas para Mulheres. Aqui, o trabalho da mulher é fonte de riqueza social e imprescindível para a estrutura doméstica familiar conjugal.

E isso, do seu ponto de vista, é uma conquista das mulheres?
É ainda um processo. Um dos pré-requisitos para o ingresso da mulher no mercado de trabalho é a educação formal. No Brasil, é algo resolvido, porque as mulheres têm acesso às universidades. Mas ainda é marcado por outros formuladores de gênero que vão fazer que as mulheres selecionem careiras ditas femininas e homens, carreiras como engenharia ou técnicas. A autonomia econômica das mulheres é algo que ainda não está conquistado, no sentido de que o trabalho das mulheres não tem o mesmo reconhecimento e a mesma remuneração que o trabalho masculino.

E o aumento do número de mulheres no mercado de trabalho faz aumentar, também, a dupla jornada.
A dupla jornada é complexa, porque o ingresso das mulheres no mercado de trabalho implica em um sistema público que funcione, com creches, pré-escolas, escolas em tempo integral. Os casos da França e da Alemanha são paradigmáticos. Na Alemanha, não há escolas em tempo integral nem pré-escola de livre acesso para todas as crianças. A Alemanha optou pelo salário-maternidade, que garante às mulheres uma ajuda econômica do estado para ficarem cuidando das crianças. O que faz com que essas mulheres que ficam em casa se afastem do mercado de trabalho, de suas carreiras, e quando tentam voltar, sobretudo nesse tempo de crise na Europa, fiquem excluídas do mercado de trabalho. A consequência é que na Alemanha a taxa de natalidade é muito menor do que na França, onde há também apoio à maternidade, mas o sistema de creches e cuidados para as crianças são universalizados, todas as mulheres podem trabalhar e têm onde deixar as crianças. A dupla jornada é mais complexa do que só trabalhos domésticos, tem uma relação direta com os organismos públicos de cuidado de crianças.

No Brasil, se resolve com outros sistemas. Por um lado, o de mútua ajuda entre gerações. Avós e tias cuidam de netos e sobrinhos, dento de um conjunto familiar. Ou um sistema mais frequente, de empregadas domésticas, que supre essa falta de equipamentos públicos para cuidar da primeira infância; o que faz com que no Brasil haja mais mulheres ingressando no mercado de trabalho do que em outros países do mundo. O emprego doméstico é, por sua vez, fruto dos graves índices de analfabetismo e da pouca escolaridade no Brasil, que produzem uma massa de milhões de mulheres com pouca qualificação educacional para ingresso no mercado mais formal de trabalho. O trabalho doméstico, no mundo inteiro, é o primeiro trabalho no qual as mulheres vão atuar.

Há a ideia de que ser mãe é o processo natural de toda mulher. Ao mesmo tempo, a taxa de natalidade está caindo em diversos países e discussões sobre a legalização do aborto são cada vez mais recorrentes. Hoje, a mulher que não quer ser mãe já é socialmente aceita?
A possibilidade de não procriar é bastante remota. O que houve foi uma diminuição drástica dos índices de natalidade mundial por fatores externos, como as descobertas médicas do século 20, que diminuíram a alta taxa de natalidade e de mortalidade infantil. O segundo ponto diz respeito aos novos valores da modernidade que vão levar a um novo lugar da infância. As crianças têm um tratamento e uma centralidade na vida dos pais que é muito recente na história da humanidade. O lugar que a infância tem hoje é predominante. O investimento que a família faz hoje é emocional e, em grande parte, financeiro. O que está dado hoje é escolher quantos filhos se quer ter. Não se ter filhos é uma possibilidade, mas que não é vivida como tal, nem por homens nem por mulheres. Há uma obrigação social na reprodução. Uma obrigação que vai produzir as novas tecnologias de reprodução, todo um novo mercado no campo médico para a reprodução social.

No Brasil, temos uma contradição, que mostra justamente como as questões do feminismo não são iguais no mundo inteiro: aqui, o aborto é criminalizado. A criminalização do aborto é uma situação que coloca o Brasil, no que diz respeito às conquistas feministas, muito atrás de outros países com o mesmo índice de desenvolvimento. Não podemos pensar que as conquistas de igualdade tenham a ver com indicadores econômicos, porque não seria o caso. E nos faz pensar nessas contradições que as questões de gênero têm na contemporaneidade. A questão do aborto é um ponto nodal no campo do feminismo, uma vez que é um espaço de autonomia e de decisão das mulheres, muito menos do que não querer ser mãe, mas a decisão de quando elas vão querer ser mães. A maternidade, enquanto um valor social do feminino, não deixa de existir e não desaparece com o movimento feminista, pelo contrário, vai tomar uma outra centralidade.

No Brasil, temos a Lei Maria da Penha. Em termos de conquistas, como você vê a situação atual da violência do homem contra a mulher?
O Brasil, nesse ponto, está muito avançado, tem uma lei que reflete muitos anos de pesquisa no campo do feminismo no país inteiro, desde a década de 1970. Uma das primeiras políticas públicas de gênero no Brasil, nos primeiros governos depois do governo militar, foi a criação das delegacias da mulher. Vinte anos depois da criação das delegacias, a Lei Maria da Penha consolidou toda uma prática de políticas públicas de atendimento às mulheres em situação de violência que se alastrou em todos os estados do Brasil, em cidades de pequeno, médio e grande porte, essa é realmente uma das questões que considero das mais bem sucedidas das lutas feministas no Brasil.

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Fonte: GLOBO CIÊNCIA
02/03/2012 17h46 – Atualizado em 03/03/2012 06h21